Espiritualidade – Fé

Como o amor, a fé é um elemento que compõe a espiritualidade do ser humano. É uma daquelas “coisas” que não podemos abarcar com os nossos sentidos, foge à compreensão da lógica normal das coisas palpáveis e visíveis. Fé não é como muitos pensam, apenas um sentimento. Não! Como os outros componentes da espiritualidade a fé é regida mais pela vontade do que por outra do ser humano.

Na Bíblia fé vem do grego pistis (aparece 228 vezes no NT) e quer dizer: convicção, confiança (dependência da salvação de Jesus Cristo) e crer vem de pisteuo (220 vezes no NT): ter fé, confiar, colocar confiança em. No Hebraico do Antigo Testamento vem do êmûnâh e traz o sentido de ser fiel, firme em um princípio (Strong’s hebrew and Greek Dictionaries, electronic version on e-sword Bibles).

Podemos deixar a confiança e a fidelidade para a psicologia moderna que a analisa apenas como uma reação que pode ser identificada desde o berço. Se uma pessoa não aprendeu a confiar ali, por não ter tido modelo dos pais, ela terá que lutar com essa deficiência por toda a vida. Solução: terapia!

Quero explorar outro lado dessa questão: exercemos fé todos os dias o dia inteiro. Aprendemos a ser seletivos a partir de feridas que colecionamos durante a vida. Aprendemos a selecionar em que(m) confiar e em que(m) não confiar, num puro exercício da vontade (outro componente da espiritualidade que discutiremos mais tarde). Na verdade saber confiar e querer confiar são duas coisas que podemos aprender. Não somos e nem precisamos ser meras vítimas de experiências do passado. Parafraseando Shakespeare: “crer ou não crer, essa é a questão!” Confiar ou não confiar fará completa diferença em nossa vida.

Como quase tudo na espiritualidade, a confiança funciona como um eco nas montanhas. Há proporcionalidade entre a confiança que eu deposito nas pessoas e a resposta que elas darão.

Todos os componentes da espiritualidade passam por fases, como por exemplo o desenvolvimento da fé (confiança). No início não sabemos andar pela fé, ao longo do tempo aprendemos a confiar. No início não sabemos andar pela confiança em Deus apenas pelos ensinamentos de Sua palavra. É difícil para a maioria das pessoas não ter elementos palpáveis e mensuráveis como pontos de partida para nossas ações. Esperamos que algo ou alguém nos dê motivos consistentes e de preferência visíveis para podermos tomar decisões e agirmos. Veja como o Mestre nos estimula a confiarmos:

Jesus começa a construir a lógica da espiritualidade, explicando a lógica do Reino de Deus: “Não estejais ansiosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer, ou pelo que haveis de beber; nem, quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que o vestuário? Portanto, não vos inquieteis, dizendo: Que havemos de comer? ou: Que havemos de beber? ou: Com que nos havemos de vestir? (Pois a todas estas coisas os gentios – pagãos – procuram), porque vosso Pai celestial sabe que precisais de tudo isso. Mas buscai primeiro o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã; porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.” (cf. Mt. 6:25-34).

Para Pilatos Jesus respondeu: “O meu reino não é deste mundo;” e insiste, “…o meu reino não é daqui.” (cf. Jo. 18:36).

Paulo esclarece o foco de uma vida cristã vigorosa e concentrada no Reino de Deus: “…não atentando nós nas coisas que se vêem, mas sim nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, enquanto as que se não vêem são eternas.” (cf. 2 Co. 4:18).

A Bíblia como um todo está repleta de desafios para que nos concentremos no reino de Deus e nas coisas invisíveis, impalpáveis e inodoras que ele contém. “Buscai!” é a ordem de Jesus. “Buscai primeiro o reino de Deus e a Sua justiça e todas essas coisas vos serão acrescentadas!” Mt 6:33.

Uma vida que confia nas coisas passageiras não pode colher os mesmos frutos como uma vida que confia nas coisas invisíveis do reino de Deus. Pois é pela contemplação que somos transformados! (A conversa com Deus e a contemplação das coisas de cima transformam a alma à semelhança de Cristo. R&H, 11/05/1886.)

O Grande Desafio:

A prática dessa confiança no invisível traduzirá quanto de fato sabemos sobre esse assunto. Só a prática na vida mostra a medida de nossa confiança em Deus! (cf. Tg. 2:17-20).

“O justo viverá pela fé!” (cf. Hc. 2:4; Rm. 1:17). O autor de Hebreus vai mais longe ainda: “Mas o meu justo viverá da fé; e se ele recuar, a minha alma não tem prazer nele.” (cf. Hb. 10:38). Viver em confiança em Deus só é verdade em demonstração de vida prática.

Algumas perguntas: Quem vive mais feliz, aquele que desconfia como princípio norteador de sua vida ou aquele que confia? Quem desfrutará de maior saúde física e mental, o que confia ou o que desconfia constantemente? Quem é cercado por mais amigos, por mais oportunidades, por mais confiança dos outros e consequentemente por mais progresso, o que investe confiança ou desconfiança nos relacionamentos?

Mas esse é um componente da espiritualidade, como todos os outros também que não encontram sua fonte dentro do ser humano. Fé não é um produto humano. Não sabemos produzir confiança!!! Podemos aprendê-la mediante exemplo inspirador. A fé é um estímulo que inicia com Deus. Saber confiar se aprende de uma única fonte: Deus.

Aqui vai o desafio para a vida prática: Você quer conhecer a natureza do Reino de Deus? Você quer galgar novas experiências de fé? Você está disposto a pagar o preço de uma vida vigorosa para honra e glória de Deus? Você quer que sua vida seja eficaz no cumprimento do propósito de Deus em sua vida? Você está disposto(a) a adquirir a confiança que Deus quer lhe ensinar?

Se você está disposto a viver as lutas de Deus, viver as alegrias e tristezas de estar nas mãos de Deus de uma maneira mais vigorosa que nunca, então você tem que se lançar nas mãos de Deus. Você tem que experimentar um grau mais profundo de confiança. Você tem que aprofundar a sua experiência de entrega.

Deus não quer menos do que tudo. Você consegue entregar tudo? A pergunta que vem em seguida: Quanto é este tudo? Até que ponto eu posso ir sem me tornar um fanático, um desequilibrado, desconectado deste mundo?

Tudo é tudo o que Deus te pedir. Qualquer coisa que Ele te pedir! Você conhece o seu Deus de tal maneira que você consegue entregar tudo? Você conhece o seu Deus de tal maneira que você consegue entender o que Ele quer de você? Você tem ressalvas? Desconfianças? Medos? A resposta vem da Bíblia: “No amor não há medo antes o perfeito amor lança fora o medo; … e quem tem medo não está aperfeiçoado no amor.” (cf. 1 Jo. 4:18). Um pouco antes ele afirma: “Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor.” (cf. 1 Jo. 4:8).

O Pastor Mark Finley quando conta sobre o seu tempo de missionário na Amazônia, ele se lembra de um momento no qual ele não tinha saída. Ele estava em meio á floresta, num caminhão quebrado, com fome e sem perspectivas de sair dali com vida. Quando se viu no desespero, não lhe restou nada a não ser fazer a entrega de sua vida por completo. Experimentou primeiro uma tremenda paz e em seguida um livramento maravilhoso e a certeza da presença de Deus se estabeleceu em seu coração, tão inequivocamente como nunca dantes.

Será que precisamos primeiro ser forçados a entrar em situações das quais não temos outra saída, senão uma entrega completa? Será que precisamos esperar Deus nos colocar em situações tais que não tenhamos outra opção a não ser andar pela fé? Será que temos que ser forçados a andar por aquilo que não vemos?

Não podemos fazer esta escolha por nossa própria decisão, já que sabemos que é este o caminho que Deus nos quer conduzir?

Colocar tudo na mão de Deus é um processo em que temos muito a aprender. Isto não se estabelece na base do: “ou você tem, ou você não tem…” Fé é um músculo flácido que precisa ser treinado. Confiança precisa ser treinada com base Palavra de Deus, pois a fé vem pelo ouvir a Palavra (cf. Rm. 10:17) e com base nas experiências com Deus. Ninguém confia assim. As evidências vão se somando e Deus nos guia pelas sendas que vão fazer de nós homens e mulheres poderosos na fé. Por que? Pois sem fé é impossível agradar a Deus (cf. Hb. 11:6).

Veja por quais fases a fé passa até que ela se torne robusta e independente de evidências visíveis e palpáveis.

As Quatro Fases:

Claro que este artigo não quer amarrar a ação de Deus e limitá-la às fases aqui estabelecidas. Deus quer, na verdade, Ele está ansioso por fazer de nós gigantes na fé.

Ele nos faz passar por experiências e nos guia (cf. Fp. 1:6), fazendo a obra em nós conforme o vamos permitindo e querendo que Ele faça.

Fase 1: Alta dependência da ação confirmatória de Deus. Ex.: Gideão e Tomé.

Fase 2: Expectativa da revelação pessoal de Deus, confirmando se a obediência estava certa. Ex.: Pedro andando sobre a água.

Fase 3: Baixa expectativa, mas ainda há esperança de que Deus Se revelará confirmando a decisão.

Fase 4: A obediência não depende mais de confirmação. “Se Deus falou na Bíblia obedeço!” Ex.: Paulo.

Que tal nos expormos voluntariamente às experiências que desenvolvam esta confiança em nós? Não estou falando de expormos a vida a perigos. Mas sim à mais plena ação dAquele Deus que em bom, que é amor, que é justo e compassivo para com todos.

Aceitemos o convite de nos achegarmos confiantemente (ter fé) ao trono de graça, (cf. Hb. 4:16), bem como o

convite de crescermos em tudo naquele que é o cabeça (cf. Ef. 4:15).

O clamor de Jesus é confie sua existência a Deus, pois Ele terá cuidado de você.

Precisamos crescer na fé, sob a ameaça de cumprirmos antes do tempo a suspeita que Jesus lançou. Ouça o desafio e veja se não temos que avançar na fé…: “quando vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?” (cf. Lc. 18:8). Precisamos de fé, pois é apenas por meio dela que terminaremos a obra. O dinheiro e a segurança que ele nos traz, já fez a sua parte, está na hora de experimentar outros patamares de fé.

Sobre Dr. Berndt Wolter

Diretor e Coordenador do Núcleo de Missões & Crescimento de Igreja.
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